Guadalupe Ascimani de Hany, 120° aniversário natalício
Início do século XX, em plena Amazônia boliviana, nascia nossa Avó Guadalupe, síntese do cosmopolitismo amazônico e a consciência ancestral. Soube ensinar às netas e aos netos o valor dos saberes originários, a empatia inesgotável e a capacidade de acolher e conviver com uma cultura totalmente diferente, tanto com seu Companheiro por mais de 36 anos de convivência como com seu Pai, que depois de viúvo se casou com a Irmã de sua falecida esposa.
Nascida Guadalupe Ascimani Ojopi, em San Joaquín de Aguas Dulces (província Mamoré, Beni, Bolívia), em 26 de fevereiro de 1906, nossa Avó materna se caracterizava por ser determinada, espirituosa e observadora. Uma verdadeira Matriarca. Era filha de libanês e originária, do povo Joaquiniano (Amazônia boliviana). Casou-se letrada, aos 13 anos de idade, em 1919, com o dentista libanês Youssef Al Hany, que, ao se naturalizar, passou a ser chamado José Al Hany. Ela, ao se casar, passou a assinar Guadalupe Ascimani de Hany.
Ela, católica praticante; ele, druso (ou 'derzi', denominação religiosa espírita árabe, bastante comum entre as colônias libanesas e palestinas no Brasil). O convívio entre os cônjuges druso e católica era normal, tanto que filhas e filhos foram enviados para o convento/seminário católico, sem qualquer problema, e se decidiram não seguir adiante com o celibato sacerdotal não foi por alguma ordem paterna -- tanto nossa Avó como nosso Avô não fizeram questão de pedir a manutenção da mesma denominação religiosa para suas noras e genros: nosso Pai e dois de meus Tios mais velhos eram muçulmanos, e os demais católicos, alguns praticantes.
A Avó Guadalupe contava que teve mais de catorze partos, dos quais 11 filhos, sete mulheres e quatro homens. Nossa Mãe era a segunda, tendo nascido em 11 de março de 1926 -- portanto, daqui a poucos dias estaria celebrando seu 100° aniversário natalício --, e por ser a primeira menina, logo assumiu a posição de "segunda Mãe", como se costumava dizer na época. As três Irmãs mais velhas e os dois Irmãos mais velhos eram os que estavam a postos nos deveres familiares (até porque o nosso Avô viajava muito à Amazônia).
Como a prole exigia assistência, precisaram deixar a bucólica San Joaquín de Aguas Dulces, perto da fronteira com o Amazonas, no Brasil. A mudança para Cochabamba, 'Ciudad Jardín', em meados da década de 1940, foi determinante para que suas Filhas e Filhos frequentassem a escola. Nossa Mãe foi a primeira a se casar, mas três outras Irmãs seguiram seus passos e no início da década de 1950 quatro das sete Irmãs já estavam casadas, duas delas tendo decidido ir definitivamente para o Líbano.
À exceção de nossas Irmãs e Irmãos mais velhos, que conviveram com a Avó até a juventude, os mais novos da prole só tivemos a sorte de conviver com ela nas férias escolares. Mesmo assim, gratíssimas lembranças, histórias inesquecíveis do tempo de seus ancestrais. Mas depois que ela se eternizou é que descobri que muitas dessas histórias ela lera de autores clássicos, cujos livros cuidava com muito esmero, alguns deles de seu Companheiro de Vida.
Quando se zangava com algum Neto traquina, seu 'palavrão' mais contundente era "¡fiel sirviente del imperialismo yanqui!" ["fiel serviçal do imperialismo estadunidense!"], e não adiantava tentar entrar no meio da zanga para apaziguar o ambiente, que a questão era pra valer. Só mais tarde retomaria a conversa. Católica, com orgulho, e declaradamente apoiadora dos movimentos revolucionários em todo o mundo: fosse a causa do Povo Palestino ou a luta do guerrilheiro Ernesto Che Guevara, na Bolívia.
Assim como o Avô José passou, em 1965, uma temporada conosco em Corumbá (quando fez pessoalmente a instalação elétrica da recém-construída vila da pensão), a Vovó Guadalupe esteve, em 1975, aproximadamente um ano depois da perda de nosso Irmão Mohamed. Nós não sabíamos, pois viera com uma de nossas Irmãs, poucas semanas de ter perdido o Tio Yoyo, o mais velho de todos os Filhos. Só informou nossa Mãe a poucos dias de seu retorno a Cochabamba, pois sabia do impacto emocional. Foi memorável sua estada conosco, carinhosa e comunicativa [ao chegarem à pensão turistas de mochila, sussurrava: "estos lagartos no son de esta bahía" ("estes jacarés não são destas águas")].
Inesquecível, também, foi estar no aniversário de 71 anos da nossa Avó. Aliás, o último de que pude participar. Algumas Primas e uma Irmã dela viajaram para estar na festa. Era 1977, na viagem que fiz à Bolívia antes do início da vida universitária, na tentativa de cursar Comunicação na Universidade Católica de Cochabamba, na ditadura do sanguinário nazifascista Hugo Banzer Suárez (mas fui desaconselhado pelos meus Irmãos e Tios, pois a repressão era intensa, e muitos os 'buzos', serviçais ou 'x-9', da ditadura).
Ela não bebia álcool. Não fumava. Adorava café. E se alimentava muito bem, só comida saudável. Além das Filhas, que compravam os alimentos, o cuidado das Netas e dos Netos, sobretudo de nossos Irmãos da área de Medicina (um formado e em 'año de provincia' no Chapare, perto de Cochabamba, e a outra concluindo o curso). Apesar dos cuidados, não pôde desfrutar da velhice, pois foi diagnosticada com câncer no fígado -- um martírio de quase um ano, tendo se eternizado em 1980, ano em que o narcogeneral Luis García Meza promoveu o sanguinário golpe que depôs a primeira presidenta constitucional boliviana, Lidia Gueiler Tejada, e assassinou líderes políticos, entre eles o combativo senador Marcelo Quiroga Santa Cruz, autor do processo judicial por lesa-pátria contra Hugo Banzer Suárez, espancado e raptado do prédio da Central Operária Boliviana.
No transcurso deste 26 de fevereiro, 120 anos de seu nascimento, sua presença em recordação afetuosa de seu legado de Matriarca é motivo de celebração. A Vida, que parece efêmera, nos ensina que nosso caminhar ganha motivação ao trazermos conosco a presença de nossos seres queridos. No dizer do imortal Atahualpa Yupanqui, em sua eterna "Los Hermanos": "Y así seguimos andando / Curtidos de soledad / Nos perdemos por el mundo / Nos volvemos a encontrar / Y así nos reconocemos / Por el lejano mirar / Por la copla que mordemos / Semilla de inmensidad / Y así, seguimos andando / Curtidos de soledad / Y en nosotros nuestros muertos / Pa que nadie quede atrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y una hermana muy hermosa / que se llama Libertad." ("Los Hermanos", Atahualpa Yupanqui)
Ahmad Schabib Hany

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