segunda-feira, 6 de março de 2023

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E JUSTIÇA SOCIAL: REORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO CAMPO

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E JUSTIÇA SOCIAL: REORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO CAMPO


Povo da Reforma Agrária busca se reorganizar para construir uma nova realidade e ajudar o país a voltar a crescer com justiça social e alimentação saudável.

2ª MARCHA DOS ESQUECIDOS (4 MAR. 2023): DOAÇÃO DE ALIMENTOS PARA A MERENDA ESCOLAR

SEGUNDA MARCHA DOS ESQUECIDOS (4 DE MARÇO DE 2023, NOVA CORUMBÁ)

 
Doação dos produtos dos Assentamentos para merenda escolar. Conforme decisão da Assembleia das trabalhadoras e trabalhadores do Campo. Foi uma assembleia muito importante, propositiva e deliberativa . A luta segue com o Seminário para elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável para a Reforma Agrária em Corumbá.


ENTREVISTA DE SÉRGIO PEREIRA AO JORNALISTA JOEL DE SOUZA (PANTANAL FM, 87.9)

https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=917698752907498&id=100003011880740&sfnsn=wiwspwa&mibextid=RUbZ1f&_rdr

Entrevista do Professor Sérgio da Silva Pereira, agricultor familiar do Assentamento Taquaral em entrevista ao Jornalista e Radialista Joel de Souza, em seu programa diário "Sala de Entrevistas", na Pantanal FM, 87.9MHz, em Corumbá (MS), dia 3 de março de 2023.




sexta-feira, 3 de março de 2023

SEU HERMENEGILDO E A MARCHA DOS ESQUECIDOS

Seu Hermenegildo e a Marcha dos Esquecidos

 

Seu Hermenegildo, sua querida Família e seus Companheiros de jornada, sagrada jornada, fizeram do Coração do Pantanal e da América do Sul celeiro de promissão, de bênçãos e de esperança.

A dignidade de um Ser Humano (letras maiúsculas) se percebe pelas atitudes ao longo de sua Vida. Seu Hermenegildo Pereira, o querido e agora saudoso ‘Seu Hermê’, me foi apresentado pelo querido e saudoso Padre Pasquale Forin em fins da década de 1980. Homem simples, sincero, generoso e, sobretudo, leal à sua luta, que não era individual, mas coletiva, e para ele coletividade incluía a Família. Na época, a Comissão Pastoral da Terra em Corumbá era coordenada pelo casal de Amigos Dionísio e Geralda, que depois se foram para Goiânia.

Seu Hermê foi um verdadeiro Mestre, que a gente só encontra em relatos pulsantes, vívidos, envolventes. Mas eu tive a honra e o privilégio de conhecer pessoalmente. Mais: Esposo da Professora Maria da Silva Pereira, diretora da Escola Monte Azul, construída pela própria comunidade do Assentamento Taquaral. Pai do também Professor Sérgio da Silva Pereira, que não só se qualificou como licenciado em Educação e bacharel em Música, mas também fez o Mestrado em Música na distante Universidade Estadual de Santa Catarina (UESC), integrou o Poetas do Cerrado e a Orquestra do Campo e que teve a felicidade de fazer os Pais ficarem honrados com sua dedicação, talento, coerência e lealdade à causa dos Trabalhadores Rurais, aos paladinos da Reforma Agrária.

Existência de muita adversidade, grandes desafios, lutas incessantes e, em um país em que os que se julgam ‘donos’ dos destinos dos mais humildes como este país-continente cuja história se remete a saques e genocídio dos povos originários e à vil comercialização de seres humanos escravizados e tratados pior que animais. Tanto é verdade, que toda vez em que a Justiça do Trabalho flagra trabalho degradante similar ao de escravo vêm escritórios de advocacia ‘de grife’ dizer que a responsabilidade era da ‘terceirizada’, os que pouco tempo atrás eram chamados de ‘gatos’.

A Jornada de Vida de Seu Hermenegildo e da Professora Maria, antes do nascimento de sua digna Prole (afinal, são proletários) é longeva e dura. Poucos hoje conhecem a saga dos Trabalhadores Rurais que fizeram a longa e perigosa Travessia do Rio dos Pássaros -- nome, aliás, do emblemático livro-reportagem escrito a seis mãos pelos Jornalistas Cácia Maria Cortez, Edson Silva e Luiz Taques no início dos anos 1980 --, quando sobreviveram à investida dos jagunços da Fazenda Santa Idalina, adquirida por uma dessas empresas de ‘Colonização’ na então ‘nova fronteira agrícola’, e o apoio da congregação da Divina Providência foi determinante, literalmente providencial. A CPT de Corumbá, integrada pelas queridas Amigas Ivaneide Minozzo, Amélia Zanella e mais tarde Delari Ebelling e Marilza Vargas e pelos igualmente queridos Amigos Milton Zanotto e Luiz Carlos Vargas, deu fundamental apoio aos agricultores durante as mais de três décadas que atuou no Pantanal.

Um dos maiores exportadores de alimentos do Planeta, o Brasil deu as costas ao lavrador – aquele que é responsável pela produção, pois sem o seu trabalho, geralmente mal remunerado, a população se desabastece de imediato, além do descontrole inflacionário --, . O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) já demonstrou em números a efetividade da agricultura familiar no contexto da produção agrícola nacional, e por outro lado a constatação da volta do Brasil ao mapa da fome. O curioso é que os mesmos que levaram o país a voltar para o mapa da fome são os que reduziram drasticamente o orçamento público para fazer valer as políticas públicas da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar.

E se isso não fosse significativo, o município de Corumbá tem conseguido minimamente manter taxa positiva de crescimento populacional -- como reconhecem até os mais recalcitrantes ufanistas declaradamente contrários à presença de trabalhadores rurais em nosso território --, graças à política de estímulo à agricultura familiar por meio da Reforma Agrária, desde 1984, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) iniciou a implantação dos atuais sete assentamentos rurais existentes, mas desassistidos de políticas públicas fundamentais para a emancipação dos até então projetos de assentamento rural.

Serei mais explícito: graças à população dos sete assentamentos rurais de Corumbá, a taxa positiva de crescimento populacional tem permitido que nosso município estivesse entre os mais populosos do estado. Não é só: ainda que abandonados, a população de assentados rurais contribui para a elevação do PIB local e regional, bem como o repasse considerável do Fundo de Participação do Estado e dos Municípios nas verbas federais e estaduais desse bolo importante. Mas a atrofia cerebral ou miopia republicana de muitos burocratas da região é tamanha, e, como vêm fazendo desde 1984 (ano da implantação do primeiro projeto de assentamento do INCRA no município), os agricultores familiares têm que fazer sua Marcha dos Esquecidos, ainda que de dez em dez anos.

Lembro-me como hoje, há 12 anos, a articulação, que contou com o apoio do Pacto pela Cidadania e da Paróquia de São João Bosco (cujo titular era o Padre Pasquale Forin). Os gestores, sobretudo estaduais, torceram o nariz, mas os agricultores familiares deixaram sua advertência, tanto na Prefeitura de Corumbá como no Ministério Público Federal. Os porta-vozes foram recebidos pelo então Procurador Wilson Prola Junior com a maior atenção e todas as reivindicações foram devidamente consignadas para a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta. Na gestão do saudoso Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira, também houve o registro das demandas, além da nomeação de um interlocutor que passou a assessorar o então prefeito petista.

Hoje, mesmo com a dor da recente eternização do querido Senhor Hermenegildo Pereira e outros importantes líderes naturais da coletividade dos agricultores familiares (alguns vítimas da pandemia de covid-19), é realizada a Segunda Marcha dos Esquecidos, neste sábado, dia 4 de março, a partir das 9 horas da manhã, no local da Feira da Nova Corumbá. A rigor, a pauta é a mesma que a de 16 de setembro de 2010, no entanto, com os agravantes do período de desassistência e falta de empatia. Como diz o Professor Sérgio Pereira, o fator motivador são as barreiras sanitárias causadas pela gripe aviária que pode chegar pela fronteira da Bolívia. Mas o pano de fundo é o mesmo que desde as diferentes datas de implantação dos projetos de assentamentos de Corumbá (e Ladário), igualmente indiferente ao drama de brasileiros que teimam trabalhar com honestidade, dignidade e generosidade.

Nesta Segunda Marcha dos Esquecidos, Seu Hermê, Padre Pascoal e tanto(a)s outro(a)s Companheiro(a)s de Jornada e Dignidade estarão em pensamento, em memória, mas as novas gerações de agricultores familiares continuam a fazer história, ou melhor, a fazer da História um instrumento de afirmação, transformação e libertação. Avante, avante, que o raiar de um novo tempo, ainda que tímido, começa a abrir o horizonte.

Ahmad Schabib Hany

 

Carta Aberta a Comunidade - Gripe Aviária - 2ª Marcha dos Esquecidos

Uma tarde difícil (2ª Marcha dos Esquecidos - Crônica do Professor Sérgio Pereira, 28 fev. 2023)

Carta aberta à comunidade ("Marcha dos Esquecidos", em 16 de setembro de 2010)

Carta aberta à comunidade

MOVIMENTO “MARCHA DOS ESQUECIDOS”

Caros moradores de Corumbá, Ladário e todo o Pantanal,

Queremos fazer uma reflexão sobre a nossa situação precária, tanto na estrutura física (água, estrada, saúde, educação, laser, escoamento da produção) quanto na questão social e política de nós assentados.

Cabe a nós, e mais ninguém, nos preocuparmos com essa situação caótica em que nos encontramos. É hora de muitos políticos aparecerem do nada e prometerem milagres para resolver nossos problemas. Compram a preço baixo o serviço de pessoas que se dizem líderes, para poderem espalhar seus interesses políticos. Mas será que somos só isso? Um número de alguns milhares de votos.

Será que nossa história desde quando se iniciou a luta pela reforma agrária em Mato Grosso do Sul não tem valor algum? Que valor estamos dando para nossa luta?

A cada dia mais e mais jovens estão partindo. Você pode ter um filho ou parente que teve que ir embora por causa da falta de perspectiva nos estudos, já que quando acaba a 9ª série na Escola, o jovem tem que ir embora do assentamento. Pois é, temos um potencial muito grande nos assentamentos.

Nossa terra tem um nível de fertilidade poucas vezes encontrada no MUNDO (comprovado por análise química), mas como não conseguimos produzir adequadamente? Por que nosso rebanho não produz mais? A resposta você já sabe: FALTA DE ÁGUA.

O maior absurdo dos assentamentos é esse: a falta d’água. Como morrer de sede em uma ilha cercada por água doce? O descaso, a corrupção e a falta de vontade política nos fazem perecer por mais de vinte anos de assentamento. No Nordeste mandaram modificar o curso do Rio São Francisco para que se atendessem comunidades da seca. Aqui não são capazes de distribuir água para assentamentos a menos de 10 km do Rio Paraguai, por quê? Não tem dinheiro?

Será que não pagamos impostos também? Imagine essa terra com um sistema de irrigação eficiente, com uma assistência técnica que funcione, abasteceríamos toda região e ainda sobraria para mandarmos para fora nossos produtos. Mas sofremos pela má-vontade e incompetência dos poderes públicos.

Nossa questão econômica é mais grave do que imaginamos, pois nossa economia é baseada no gado leiteiro. Vamos pensar se o governo fizer cumprir a lei de sanidade (aquela lei que não permite vender o leite em garrafa ou sem estar pasteurizado). Como seria? Qual alternativa teríamos no momento?

Nosso sistema de transporte é humilhante, pois as pessoas têm que levar as mercadorias amontoadas nos ônibus da linha e a superlotação é um risco todo dia de feira. E no ônibus escolar as crianças passam por riscos de vida nas estradas degradadas e ônibus velhos.

Nossas estradas são uma vergonha, faz quantos anos não há uma
pavimentação decente, e ainda, para piorar, nossa patrola destinada somente à área de assentamentos para melhoria das estradas, produção de curva de nível e limpeza de açudes, estava trabalhando na cidade de Corumbá, “cedida” para uma empresa particular. Ou seja, o pouco que temos ainda nos foi tirado.

E ainda assim o povo dos assentamentos luta pela sobrevivência, para dar um futuro melhor para os filhos. Mas luta sozinho, cada um na sua luta solitária.

O que propomos é transformar essa luta solitária numa luta conjunta entre todos os assentamentos, onde possamos cobrar no MINISTÉRIO PUBLICO FEDERAL as devidas ações para não sofrermos mais tantas injustiças. Nosso MOVIMENTO visa organizar uma AÇÃO CONJUNTA contra o ESTADO (UNIÃO, GOVERNO DO ESTADO E PREFEITURA), através de um abaixo-assinado com as seguintes reivindicações:

*Abastecimento de água do Rio Paraguai para irrigação e consumo animal.

*Abastecimento de água potável para consumo humano.

*Pavimentação (cascalhamento) das estradas vicinais e travessões, construção de tubulação e pontes para córregos secos e retorno imediato da patrola na zona rural. *Construção de uma Escola Técnica Agrícola Federal para alunos dos assentamentos da região.

*Renegociação das dividas de financiamentos.

*Retomada das agrovilas cedidas à empresa BEM-BOM ou o cumprimento do acordo feito pela Prefeitura de Corumbá.

*Atendimento médico eficiente a todos pacientes dos postos de saúde e uma ambulância em cada posto e implantação do programa saúde na família em todos os Assentamentos da região.

*Descriminalização do trabalho nos Assentamentos em relação ao Meio Ambiente.

Esta carta é uma reflexão, para lembrarmos um pouco da nossa história, do que fomos e somos capazes de fazer, e acreditamos que este é o momento para sermos ouvidos, o momento em que somos importantes e enxergados pelos poderosos – o momento que antecede as eleições.

Vamos nos unir e reivindicar, protestar, nos organizar para termos mais força, e o mais importante: não podemos nos vender, vender nossas consciências nestas eleições, pois o preço que estamos pagando é muito alto.

Por isso fazemos nossa AÇÃO CONJUNTA NO MINISTÉRIO PÚBLICO, e uma passeata no dia 16 de SETEMBRO DE 2010, sendo uma MOBILIZAÇÃO GERAL DOS ASSENTAMENTOS para entregar o documento no Ministério Público Federal. Se você está cansado de sofrer, venha se juntar a nós. O local da concentração será: ENTRADA DO LIXÃO NA NOVA CORUMBÁ, ÀS 7:00 DA MANHÃ.

Íntegra da Carta Aberta à Comunidade publicada pelo Movimento "Marcha dos Esquecidos"

Corumbá (MS), 16 de setembro de 2010.