Carta aberta à comunidade
MOVIMENTO “MARCHA DOS ESQUECIDOS”
Caros moradores de Corumbá, Ladário e
todo o Pantanal,
Queremos fazer uma reflexão sobre a
nossa situação precária, tanto na estrutura física (água, estrada,
saúde, educação, laser, escoamento da produção) quanto na questão social
e política de nós assentados.
Cabe a nós, e mais ninguém, nos
preocuparmos com essa situação caótica em que nos encontramos. É hora de
muitos políticos aparecerem do nada e prometerem milagres para resolver
nossos problemas. Compram a preço baixo o serviço de pessoas que se
dizem líderes, para poderem espalhar seus interesses políticos. Mas será
que somos só isso? Um número de alguns milhares de votos.
Será que nossa história desde quando se
iniciou a luta pela reforma agrária em Mato Grosso do Sul não tem valor
algum? Que valor estamos dando para nossa luta?
A cada dia mais e mais jovens estão
partindo. Você pode ter um filho ou parente que teve que ir embora por
causa da falta de perspectiva nos estudos, já que quando acaba a 9ª série
na Escola, o jovem tem que ir embora do assentamento. Pois é, temos um
potencial muito grande nos assentamentos.
Nossa terra tem um nível de fertilidade
poucas vezes encontrada no MUNDO (comprovado por análise química), mas como não conseguimos produzir adequadamente?
Por que nosso rebanho não produz mais? A resposta você já sabe: FALTA DE ÁGUA.
O maior absurdo dos assentamentos é
esse: a falta d’água. Como morrer de sede em uma ilha cercada por água
doce? O descaso, a corrupção e a falta de vontade política nos fazem
perecer por mais de vinte anos de assentamento. No Nordeste mandaram
modificar o curso do Rio São Francisco para que se atendessem
comunidades da seca. Aqui não são capazes de distribuir água para assentamentos
a menos de 10 km do Rio Paraguai, por quê? Não tem dinheiro?
Será que não pagamos impostos também?
Imagine essa terra com um sistema de irrigação eficiente, com uma
assistência técnica que funcione, abasteceríamos toda região e ainda
sobraria para mandarmos para fora nossos produtos. Mas sofremos pela
má-vontade e incompetência dos poderes públicos.
Nossa questão econômica é mais grave do
que imaginamos, pois nossa economia é baseada no gado leiteiro. Vamos
pensar se o governo fizer cumprir a lei de sanidade (aquela lei que não
permite vender o leite em garrafa ou sem estar pasteurizado). Como
seria? Qual alternativa teríamos no momento?
Nosso sistema de transporte é
humilhante, pois as pessoas têm que levar as mercadorias amontoadas nos
ônibus da linha e a superlotação é um risco todo dia de feira. E no
ônibus escolar as crianças passam por riscos de vida nas estradas
degradadas e ônibus velhos.
Nossas estradas são uma vergonha, faz quantos anos não há uma
pavimentação decente, e ainda, para piorar, nossa patrola
destinada somente à área de assentamentos para melhoria das estradas,
produção de curva de nível e limpeza de açudes, estava trabalhando na
cidade de Corumbá, “cedida” para uma empresa particular. Ou seja, o
pouco que temos ainda nos foi tirado.
E ainda assim o povo dos assentamentos
luta pela sobrevivência, para dar um futuro melhor para os filhos. Mas
luta sozinho, cada um na sua luta solitária.
O que propomos é transformar essa luta
solitária numa luta conjunta entre todos os assentamentos, onde possamos cobrar no MINISTÉRIO PUBLICO FEDERAL as devidas
ações para não sofrermos mais tantas injustiças. Nosso MOVIMENTO visa organizar uma AÇÃO CONJUNTA contra o ESTADO (UNIÃO, GOVERNO DO ESTADO E PREFEITURA),
através de um abaixo-assinado com as seguintes reivindicações:
*Abastecimento de água do Rio Paraguai para irrigação e
consumo animal.
*Abastecimento
de água potável para consumo humano.
*Pavimentação (cascalhamento) das estradas vicinais e travessões, construção de tubulação e pontes para
córregos secos e retorno imediato da patrola na zona rural. *Construção
de uma Escola Técnica Agrícola Federal para alunos dos assentamentos da
região.
*Renegociação
das dividas de financiamentos.
*Retomada
das agrovilas cedidas à empresa BEM-BOM ou o cumprimento do acordo feito
pela Prefeitura de Corumbá.
*Atendimento
médico eficiente a todos pacientes dos postos de saúde e uma ambulância
em cada posto e implantação do programa saúde na família em todos os
Assentamentos da região.
*Descriminalização do trabalho nos Assentamentos em relação ao
Meio Ambiente.
Esta carta é uma reflexão, para
lembrarmos um pouco da nossa história, do que fomos e somos capazes de
fazer, e acreditamos que este é o momento para sermos ouvidos, o momento em que somos importantes e enxergados pelos poderosos – o momento que
antecede as eleições.
Vamos nos unir e reivindicar,
protestar, nos organizar para termos mais força, e o mais importante:
não podemos nos vender, vender nossas consciências nestas eleições, pois
o preço que estamos pagando é muito alto.
Por isso fazemos nossa AÇÃO CONJUNTA NO MINISTÉRIO PÚBLICO, e uma passeata no dia 16 de SETEMBRO DE 2010, sendo uma
MOBILIZAÇÃO GERAL DOS ASSENTAMENTOS para entregar o documento no
Ministério Público Federal. Se você está cansado de sofrer, venha se juntar a
nós.
O local da concentração será: ENTRADA DO LIXÃO NA NOVA CORUMBÁ, ÀS 7:00 DA MANHÃ.
Íntegra da Carta Aberta à Comunidade publicada pelo Movimento "Marcha dos Esquecidos"
Corumbá (MS), 16 de setembro de 2010.