Com quantos crimes se faz um fantoche?
A sucessão de episódios aparentemente desconexos pela mídia corporativa em conluio com agentes públicos desde o início deste ano eleitoral, agravada nestes dias pelos atropelos regimentais e violação da norma constitucional por membro do STF, acende o sinal de alerta para a orquestrada intervenção estrangeira no sagrado processo de escolha, pelo cidadão brasileiro em gozo de suas prerrogativas políticas, do presidente e vice-presidente da República, dos deputados federais e senadores, dos governadores e vice-governadores e dos deputados estaduais e distritais pelo Brasil afora.
Está mais que na hora de a sociedade civil voltar a mobilizar as ruas e levar a palavra de ordem em defesa do Estado Democrático de Direito ante o risco iminente de ingerência estadunidense no processo eleitoral, de acordo com investigações da Procuradoria Geral do Estado Plurinacional da Bolívia sobre o cidadão argentino Fernando Cerimedo, mercenário digital e sócio do espanhol Javier Negre no 'La Derecha Diario', do argentino-estadunidense Damián Merlo Debernardi no 'Latin America Advisory Group' e do estadunidense Brad Parscale, na 'Clock Tower X', que fez a campanha vitoriosa de Donald Trump.
Cerimedo, peão do caos?
A prisão de Cerimedo, na Bolívia, expôs a intrincada rede de crimes em série cometidos em toda a América Latina por mercenários digitais associados a altos agentes públicos, políticos ultraliberais, empresários abutres, religiosos conservadores, mídia corporativa e organizações criminosas de vários setores, inclusive contrabando de metais preciosos e narcotráfico -- em nome de cujo combate a Casa Branca protagonizou a pirotecnia do sequestro de Nicolás Maduro e sua companheira, a pilhagem das matérias primas da Venezuela e a violação de sua soberania nos primeiros dias deste fatídico 2026.
A bola da vez é o Brasil, depois de Marco Rubio e seus peões pagos a soldo de ouro terem capturado Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru, sempre com o mesmo ardil: uso de ferramentais digitais associadas ao processo de cooptação de religiosos conservadores; empresários do sistema financeiro, agro, indústria e comércio; agentes públicos do sistema judicial e procuradoria de justiça; dos órgãos de segurança; políticos conservadores que perderam apoio em sua pauta antipopular; criminosos de todos os ramos, e a mídia corporativa cujos donos enfrentam a desvantagem de competir com os ágeis e competentes Jornalistas e colaboradores das mídias independentes.
Vistas grossas por quê?
Embora a mídia corporativa no Brasil faça vistas grossas ao escândalo causado pelas revelações das atividades criminosas de Fernando Cerimedo, que esteve na relação de suspeitos de promover a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 contra o Estado Democrático de Direito, o procurador Paulo Gonet, da Procuradoria-geral da República, precisa fazer contato com seu homólogo da Bolívia para ter acesso à arquitetura do crime em série cometido a partir de La Paz (onde tinha uma granja de bots) a vários países da América Latina, não só na extorsão de exportação (isto é, contrabando) de commodities bolivianas e até tráfico de entorpecentes em larga escala, como na disseminação turbinada de fakenews para apoiar a extrema-direita latino-americana.
Fora do governo durante longo período, a direita na América Latina estava descapitalizada, precisando de financiamento revigorado mediante o uso do dinheiro sujo (oriundo de atividades ilícitas como as flagradas com Cerimedo na Bolívia e ramificações pela Argentina, Chile, Honduras, Peru e Equador). É que um bom número de empresários, após experimentar a segurança jurídica e a estabilidade econômica dos governos progressistas como o do Presidente Lula, preferiu se manter à distância dessas aventuras golpistas que debilitam a economia nacional e succionam as reservas cambiais do país em que atuam.
Vorcaro, um Cerimedo brasileiro?
Se na Bolívia, Argentina, Paraguai, Chile e Peru o escândalo político veio à tona após a fracassada tentativa de feminicídio da ex-namorada de Cerimedo, advogada e ativista boliviana Nadia Beller, que ao sobreviver denunciou as atividades nada ortodoxas de seu algoz argentino e seus sócios espalhados pela América toda, no Brasil o fio da meada é, sem dúvida, o caso Master, de Daniel Vorcaro, e sua promíscua rede de distribuição de, digamos, agrados milionários entre agentes públicos e políticos, sobretudo, ligados ao clã dos Bolsonaro (Eduardo, que fez entrega solene de troféu em Miami em fevereiro de 2025 a Cerimedo, seria o destinatário da 'generosidade' de Vorcaro, e Flávio, que cobrou repasse de 131 milhões em março de 2025 ao dono do Banco Master, que dizia desconhecer, mas que chamava de 'irmão').
Segundo investigações mais recentes, tornadas públicas pelo ministro Flávio Dino, do STF, depois dos atropelos cometidos pelo terrivelmente evangélico ministro André Mendonça -- pivô da maior crise de confiança no STF a menos de quatro semanas das eleições gerais, em que se transforma no 'turbinador' da campanha 'morna' e 'desidratada' do filho do presidente que o indicou para o STF, a ponto de ganhar boneco inflável igual ao de Sérgio Moro quando era 'paladino' da extrema-direita, além de exibição de dois vídeos nas últimas semanas em que, como cristão, agradece aos seus irmãos de fé pelo apoio e solidariedade que se confundem com apoio a um dos candidatos do processo eleitoral em que como juiz natural jamais poderia ter permitido, ainda que o vídeo tivesse sido feito meses antes, em outro contexto --, a titular da 'Go Up', produtora do filme 'Dark Horse', é destinatária de duas emendas parlamentares de Mário Frias, deputado federal (PL-SP) e diretor do filme.
Mendonça sob suspeição?
Por outro lado, o ITER, instituto do qual o ministro Mendonça e sua esposa eram sócios até serem revelados pagamentos por contratos de prestação de serviços de cursos sem qualquer especialização, pela prefeitura de São Paulo e governos do Rio de Janeiro e de São Paulo, com dispensa ou inexigibilidade de licitação, apresenta, segundo o Jornalista Luis Nassif, da TV-GGN (canal do YouTube), na relação de notas numeradas emitidas entre os dias 11 e 14 de março (dia em que houve uma reunião com Vorcaro no instituto), uma lacuna de 37 notas em um lapso de três dias, o que lhe chamou a atenção.
A ultradireita, em sua ideologia excludente e supremacista, propõe apartheid social, racial e até regional. Porém, lembrando o jargão da atriz Regina Casé em seu extinto programa na 'vênus platinada' das décadas de 2000 e 2010, "tudo junto e misturado" (com todo respeito pela cosmovisão de integração social da atriz referente) é o esquema como entre seus pares desenvolvem os políticos protofascistas uma relação tão monolítica que chega a ser promíscua e de contubérnio sem qualquer dissimulo.
'Mermão', como assim?
Além do palavreado entre eles, mesmo alegando não se conhecerem -- como 'mermão', 'lindão' e 'irmãozão' --, o assédio, achaque e 'pedição' chegam a causar rubor aos mais comedidos: a facilidade com que aceitam ou pedem favores, geralmente dinheiro, passagens internacionais ou uso de aeronaves, quando não acompanham a alfaiataria de alta costura com intimidade inusual, como registrado sem qualquer explicação convincente. Por questão de consciência, poderia ter se declarado impedido para ser o relator, pois seu colega ministro Toffoli assim o fizera quando a imprensa corporativa promoveu um festival de insinuações quando foi sorteado para relatar o caso. Claro que entre 'ungidos' isso jamais caracterizaria qualquer ato constrangedor, pois, pelo visto, estão acima de qualquer suspeita. Mas isso não está no arcabouço jurídico brasileiro de Estado laico ou na liturgia do cargo, no contexto das normas e princípios republicanos que pautam todas as instituições federais.
Mesmo em um Estado laico, aos que se norteiam por princípios religiosos não é demais lembrar que nenhuma denominação religiosa -- absolutamente nenhuma -- detém condão, monopólio ou privilégio sobre a Justiça Divina. Independentemente de suas culturas ou concepções místicas, em todas as religiões e crenças com as quais os seres humanos louvam ou veneram o Supremo Criador, os princípios, via de regra, têm caráter ético comum a todos, e o respeito ao outro -- no caso de Jesus Cristo, lembremo-nos de sua mensagem aos gentios -- se manifesta pela Misericórdia Divina.
'Ungido' pode tudo?
Lembremo-nos de que mesmo estando sós ou entre os nossos, Deus está vendo nossas atitudes e nossas intenções. Até porque, no contexto político em que nos encontramos, não é de bom tom, não é da ética cristã, conceber ou praticar o legado maquiavélico de que os fins justificam os meios. A soberba, essa funesta soberba, é responsável pelo colapso da fé, pela derrocada dos valores civilizacionais, pelo esgotamento da cidadania e pela decadência da solidariedade humana, sem os quais não há sociedade que resista à voragem, ao caos planejado, ao jugo dos tiranos travestidos de benfeitores.
O caos, aliás, tem sido tentado pelos chamados paladinos da direita: Moro tentou assediar altas esferas da República em sua sanha contra Lula de várias formas, inclusive com a festa da cueca e chantagem explícita enquanto se julgava no direito de destruir empresas brasileiras de alta tecnologia. Vorcaro com o seu Master fez coisa parecida e, inexplicavelmente, muitos 'pastores' -- o próprio ministro Mendonça, que tem dados guardados sob sigilo, ao não agir tempestivamente, sinaliza no mesmo sentido, pois não é durante a campanha eleitoral que deve agir como magistrado, ainda que sua fé o inste à 'missão'. A sua condição de servidor público de alto escalão o obriga a não prevaricar, não procrastinar e, obviamente, a não conspurcar.
Com lealdade, coragem e sinceridade, temos que enfrentar e repelir o real monstro do hemisfério norte que está a atentar contra a Soberania, o Estado de Direito, a Democracia e a Vida de cada um dos seres humanos, dos seres vivos, neste país-continente. Sem medo. Sem medo de ser. Sem medo de ser feliz.
Ahmad Schabib Hany
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