TRÁGICO FIM DE UM FILHO DE IMIGRANTES PARAGUAIOS
A inquietante eternização de Alcides Bernal expõe o ranço colonial das elites campo-grandenses, que, a despeito da majoritária presença paraguaia na composição socioétnica de sua população, seus descendentes são tratados como sendo 'da senzala'.
É marcada por uma sucessão de tragédias a história de família do ex-prefeito campo-grandense Alcides Bernal, falecido na madrugada de 13 de julho, aos 60 anos, em decorrência de problemas cardíacos depois de passar por uma série intervenções e internações hospitalares e de pedidos negados de prisão domiciliar por ter atirado contra um fiscal tributário -- levando-o à morte -- que tentava adentrar na mansão que havia arrematado em leilão.
Alcides Jesus Peralta Bernal nasceu em Corumbá em 14 de julho de 1965, ao se iniciar o regime militar que se abateu sobre o bastião trabalhista e cosmopolita que atrapalhava os projetos de poder da União Democrática Nacional (UDN), cujo candidato derradeiro a governador, Lúdio Martins Coelho, apesar do aparelhamento eleitoral da ditadura em 1965, sofreu uma surpreendente derrota para Pedro Pedrossian graças ao apoio massivo do eleitorado corumbaense, o mesmo que fez de Cecílio de Jesus Gaeta (ainda que não tivesse correspondido) sua expressão de descontentamento com o regime que lhe usurpou o direito de eleger seus prefeitos durante 20 anos.
De ascendência paraguaia, Bernal fez de Campo Grande seu refúgio para um drama que marcou sua família na década de 1970. Vítimas de atentado na estrada do distrito de Urucum -- nunca esclarecido, como quase todos os crimes cometidos durante os anos de chumbo, em que os apaniguados sempre foram beneficiados --, pai e tio tiveram suas vidas truncadas: o tio morto, o pai condenado a passar o resto de sua vida em cadeira de rodas, impedido de trabalhar.
Segundo um Amigo Jornalista, o pai de Bernal decidira mudar-se para a então futura capital à procura de justiça, pois na comarca de vítimas viraram réus. Foi como os conheceu o saudoso advogado e líder oposicionista Plínio Barbosa Martins, por quem, aliás, Alcides nutria profunda gratidão e simpatia. Mas ele não podia dizer o mesmo dos usurpadores da emblemática legenda desse grande democrata, pois foram os que investiram em sua deposição, tendo sido o único prefeito cassado da história de Campo Grande.
Não bastasse a cassação, quando se viu às voltas com a Justiça -- por crime de sangue que cometeu à luz do dia contra o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, em março deste ano --, os sucessivos pedidos da defesa para que lhe fosse concedida a prisão domiciliar por razões humanitárias foram reiteradas vezes negados. Sem ter passado pelo tribunal do júri, acabou condenado à pena capital, de fato. Irreversível e peremptoriamente.
Havia algo no comportamento de Alcides Bernal que o tornava alvo fácil dos oportunistas. Talvez a tragédia familiar ou o trauma de ser um 'intocável', um pária, em uma sociedade rançosa em que, em vez de currículo, o 'pedigree' é o que vale nas relações sociais e políticas, em pleno século XXI. Em muito de seu agir, no aspecto político, lembrava o ex-deputado Jesus Gaeta, outro 'agregado' que pagava caro para ser aceito pelas hordas políticas provincianas do estado nascido do casuísmo de um regime nos estertores da morte (não se tratou de uma 'conquista' do movimento divisionista, mas de um casuísmo com o cínico afã de obter mais seis deputados e três senadores para a Arena, partido de apoio da ditadura, de nefasta memória).
O preconceito com os imigrantes paraguaios, como com os nordestinos e com os bolivianos (e com os originários, os indígenas, que não são imigrantes, mas donos destas terras), é algo explícito. Descarado. Lembro-me como hoje da alcunha usada por muitos de seus desafetos quando estava na Prefeitura de Campo Grande, 'o paraguaio' (da mesma forma que o ex-governador Zeca é até hoje igualmente alvo desse preconceito). O pior é que o vice e sucessor também tem ascendência paraguaia, mas recebia tratamento de pastor, embora o epíteto de 'judas', a boca pequena, muitas vezes viesse à tona entre seus correligionários e interlocutores.
O fato é que as elites campo-grandenses agem como se ainda vivessem no século XIX. Beneficiárias desde sempre da impunidade, usam as instituições para perseguir seus desafetos. Alcides Bernal entra para a história política de Mato Grosso do Sul não pelos crimes de que foi acusado. Entra para a história deste estado provinciano e profundamente inóspito por ter sido mais uma vítima do apartheid não declarado, mas cada vez mais consentido.
Trágico fim de um descendente de imigrantes paraguaios que ousou sair da 'senzala' a que estão condenados todos os 'intocáveis', os párias de uma sociedade de castas em que imigrantes da Europa e do Oriente têm outro tratamento. Cometeu o crime de derrotar famiglias poderosas beneficiárias de uma impunidade secular, ou melhor, uma impunidade atávica, desde antes dos funestos tempos da ditadura. Que algum contemporâneo tenha a coragem cívica de escrever um livro sobre a tragédia familiar de Alcides Bernal.
À querida Professora Maria Nely Urbieta Bernal e Família, minha sincera e profunda solidariedade. Que Deus tenha compaixão de seus algozes, impunes.
Ahmad Schabib Hany
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