Charge de Louis Dalrymple, de 1905. Ao lado, a adaptação de 2025.
Os Estados Unidos e seus arroubos predadores
'Destino manifesto', 'doutrina Monroe' e 'doutrina Donroe'. Desde a colonização pelos ingleses, as elites estadunidenses são predadoras: não por acaso dizimaram os povos originários e submeteram ao seu jugo opressor africanos escravizados, latino-americanos explorados, árabes e demais asiáticos e africanos condenados por pura ganância e cobiça sem fim. Até quando?
Tomo a liberdade de iniciar este texto remetendo-me a uma das razões que fizeram com que o escrevesse (há outra, exatamente oposta, para felicidade de quem teimou em passar boa parte da vida a tentar valorizar, anônima e ainda que minimamente, as bases de uma sociedade menos injusta e mais solidária).
Dias atrás, ao conversar com o filho universitário (mais de 50 anos de vida, pós-graduado e com tudo que um pai faz pelo primogênito) de um grande Amigo -- desses com letra maiúscula --, percebi que estudar não significa muita coisa quando o pensamento é raso e o neopentecostalismo faz verdadeira lavagem cerebral e, como em guerra de terra arrasada, perdem sua razão de ser todos os valores construídos pela humanidade ao longo de milênios que com muita coerência e abnegação a família desse Amigo passou a vida a fortalecer.
Sábio, meu querido e saudoso Pai, em nosso fecundo convívio familiar, vivia a nos alertar, contando o episódio em que o pai tomado de perplexidade com a mediocridade do filho formado que retorna da Europa, a quem dá uma 'invertida' com genial paródia ao ridículo poema com que ao chegar saudou seus familiares e amigos no campo de pouso do povoado da Amazônia boliviana: "Se de teus estudos / esse é o fruto, / aiaiai que bruto, / aiaiai que bruto!" ["Si de tus estudios / ése es el fruto, / ¡ayayay, qué bruto!, / ¡ayayay, qué bruto!"]
SEDUTORES OLHOS AZUIS
Ver os arroubos predadores do 'agente laranja' que se jacta de ser uma espécie de 'césar' do século XXI é pura desinformação. Os Estados Unidos são a melhor representação daquilo que durante séculos o colonialismo europeu proclamou de 'civilização' e chamou para si um papel fictício de paladinos do 'progresso'.
Triste é vermos não apenas uns energúmenos portadores de diploma -- pobres diabos que se creem 'cultos' pelo diploma que carregam --, mas uma imprensa criminosa que vive a mentir, mentir e mentir acintosamente desde os tempos em que construíram uma narrativa para sublimar o chamado 'quarto poder'. Na verdade, poder do quarto -- da edícula dos criminosos que desde as 'grandes navegações' vivem a assaltar terras, vidas, culturas, riquezas, a história e o porvir de outros povos. À exceção, é claro, de Jornalistas com letra maiúscula que, com coragem e dignidade, ajudam ou ajudaram a escrever a história com base nos fatos.
'Destino manifesto', 'doutrina Monroe' ou agora 'doutrina Donroe'? Uma ova, não passa de mera justificativa para cobiçar, explorar, pilhar, saquear, roubar. Isso as elites estadunidenses fazem, desde sempre, com eficiência e muito, mas muito profissionalismo. Feito fera acuada, o imperialismo, recorre a todos os meios de que dispõe -- inclusive com o recrudescimento do fascismo, desta vez remasterizado e 'cristianizado', com as bênçãos dos sionistas que exportam seu know-how genocida experimentado com o povo milenar da Palestina, Líbano, Iraque, Líbia e Síria, não por acaso, (ex?)colônias da Inglaterra, França e Itália.
Com um arsenal nuclear capaz de destruir o Planeta dezenas de vezes, os EUA têm noção, sim, de que os dias de hegemonia global estão contados. Nunca se tratou de defesa da democracia e liberdade, mas de cobiça e saque. A história está aí para provar, e para isso não vamos a desenhar, vamos recorrer às emblemáticas pinturas e charges a expressar eloquentemente esse irrefutável dom, inigualável aptidão para dominar, explorar, destruir e exterminar as suas vítimas.
Os Estados Unidos são o cúmulo da volúpia saqueadora europeia, cuja perfeição é o Estado sionista de Israel. Como as novas gerações de cariocas vivem a dizer, "tudo junto e misturado". Ou teria sido mera coincidência o apoio incondicional ao genocídio de Gaza pelos sionistas de Benjamin Netanyahu, sob o pretexto de retaliar a 'ação terrorista' que capturou soldados em festa em área contígua à Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023? Bebês, crianças, adolescentes, jovens, mulheres grávidas, mães de todas as idades, idosos inofensivos, mortos aos milhares com requintes de crueldade por serem palestinos. Isso é 'democracia', é 'civilização'?
O século XIX -- diferentemente do anterior, em que o Iluminismo, herança do Renascimento ocidental (porque o oriental, acintosamente ignorado pelo ocidente, havia ocorrido um milênio antes e com efetivo protagonismo árabe, cujo legado foi essencial para a emancipação civilizacional da Europa feudal), contribuiu para a difusão do humanismo em solo europeu -- foi pródigo não apenas para a exarberação do racismo científico eurocêntrico (a 'eugenia'), como para as 'doutrinas' em que os europeus e as elites herdeiras das ex-colônias tentavam justificar uma suposta 'missão divina', como o sionismo e as bases fundantes do nazismo, fascismo e 'apartheid'.
INTERPRETAÇÃO TORTA DA BÍBLIA
Absolutamente nada os seguidores de Henrique VIII, Lutero e Calvino podem criticar das ações da Companhia de Jesus, da igreja católica, e seu afã de 'cristianizar' os 'pagãos' que habitavam os territórios 'descobertos' (invadidos) pelos súditos dos reis católicos (lusitanos, castelhanos e aragoneses, mais tarde portugueses e espanhóis). Os súditos dos descendentes de Henrique VIII (aquele rei que, ao não ter consentimento papal para contrair o quarto casamento, decidiu, aproveitando a onda protestante, criar sua própria igreja, tanto que até hoje o rei inglês é o sumo pontífice da igreja anglicana) se valeram da pirataria para pilhar as naus cheias de matéria-prima saqueada das terras recém-ocupadas pelos ibéricos -- além de franceses, belgas e holandeses, que usaram corsários --, e quando decidiram tomar parte das terras colonizadas por seus 'irmãos cristãos' também recorreram à interpretação torta da Bíblia, como, aliás, fazem hoje os neopentecostais, nada diferente, a rigor.
Em 'Progresso Americano', de 1872, John Gast retrata alegoricamente o 'destino manifesto', doutrina com que desde o início do século XIX as elites dos Estados Unidos procuram estimular o ímpeto predador, colonialista e explorador sob a interpretação bíblica ao bel prazer e, sobretudo, de interesses inconfessáveis. Não esqueçamos que essas elites são seguidoras do puritanismo protestante do século XVI e, por meio da ideologia do 'destino manifesto', recorreram a u'a 'missão divina' para levar 'democracia' e 'progresso' a todo o continente. Ao aliar à doutrina Monroe, as elites passaram a ter o que queriam para delinquir em sua ganância mórbida. Eis o 'capetalismo' que 'cristãos' apoiadores do sionismo tanto defendem.
[Imagem disponível na Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos EUA. Domínio público, identificação digital: ppmsca.09855.]
A doutrina "A América para os americanos" foi adotada pelos Estados Unidos em 1823, na presidência de James Monroe, daí o nome. Com a sua adoção, o território triplicou e suas riquezas tiveram crescimento exponencial, a ponto de se tornar, ainda no século XIX, uma potência mundial. No pós-guerra de 1945, foram considerados uma das duas superpotências e por 45 anos disputaram com a extinta União Soviética a hegemonia mundial. Desde 1991, com o fim do antagonismo soviético, passaram a ser considerados a maior potência global, quando teses de Francis Fukuyama (do fim da história) e de Samuel Huntington (do choque de civilizações), serviram para justificar as investidas da Casa Branca no Iraque, Líbia e outros países árabes cobiçados.
Embora desde fins da década de 1990 o déficit fiscal dos EUA fosse trilionário -- isto é, se encontrasse em escala estratosférica e os tivessem levados a gestões predadoras em nível planetário --, é a partir de 2008 que a crise financeira do tesouro estadunidense se torna indisfarçável. A (re)eleição de Donald Trump em 2024 reacende a velha nova postura predadora dos Estados Unidos perante a Terra e, em 2025, em meio a sucessiva coleção de fracassos em sua obsessiva 'guerra' contra a China, anuncia a (re)criação da 'Doutrina Monroe 2.0', mais tarde rebatizada de 'Doutrina Donroe', em associação ao seu primeiro nome e ao sobrenome de James Monroe. O ápice de seus desvarios até o momento é o ousado ataque à Venezuela, com a maior reserva de petróleo do mundo e que havia 25 anos se afastado da influência dos EUA.
Não dá para disfarçar que, a despeito da pirotécnica e desproporcional ação militar contra a Venezuela, Trump e sua quadrilha -- com a covarde torcida de, digamos, 'inocentes úteis' da América Latina -- não quiseram repetir os erros cometidos por seus antecessores no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, por exemplo, e deixaram, sob a mira de fuzis, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, até porque a rastejante María Corina, digo, 'Trumpina' Machado não tem, sequer, competência e estatura para governar um país das dimensões da Venezuela. Por essa razão, o 'agente laranja' vive a alternar postagens em suas redes sociais, ora louvando, ora ameaçando a estadista venezuelana -- isso para atender seu narcisismo mórbido, cada vez mais próximo de Nero, o desmiolado que ateou fogo em Roma, destruiu seu império e deu fim à própria vida.
13 QUE SE TORNAM 50
Os Estados Unidos são as 13 ex-colônias inglesas que em 1776 se libertaram do jugo inglês. Os 13 estados federados com capital Washington (em homenagem a um dos líderes da independência), em poucas décadas triplicaram seu território e em menos de 100 anos se tornam 50 estados, graças à cobiça de suas elites -- que se criam destinadas a triunfar sobre os demais povos da América (do Norte, Central e do Sul). Inclusive sobre os povos originários, que foram dizimados ou, depois de explorados e saqueados, escravizados como os africanos acorrentados pelos europeus em seu funesto comércio escravista. Durante o século XIX foram se expandindo para o Oeste, invadindo territórios de seus vizinhos mexicanos, também ex-colônia europeia (da Espanha), tomando-lhes, a partir de 1836, o que hoje corresponde à Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, Texas, Colorado, Wyoming, Kansas, Oklahoma e a 'compra' de Gadsden em 1856.
Criada um ano depois da independência do Brasil, a doutrina que parecia ser, a princípio, de proteção, pelos Estados Unidos, dos países norte, centro e sul-americanos recém-independentes das metrópoles coloniais (Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Dinamarca etc) revelou-se invasora, saqueadora e opressiva. Além do México, os países do continente americano que sentiram a mão pesada dos 'irmãos do norte' foram as nações que se libertaram do jugo espanhol (Cuba, Porto Rico, Panamá, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Colômbia e Venezuela) e da França (o Haiti, na época próspero e dos primeiros da América a se libertar do colonialismo europeu).
Caro/a leitor/a, Você acha que as populações da Groenlândia, Bermudas, Canadá, México, Guatemala, Belize, Cuba, Panamá, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Porto Rico, Costa Rica, Haiti, Jamaica, Trinidad e Tobago, República Dominicana, Martinica, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai -- cuja altiva população foi e é submetida à mais tirânica ação imperialista desde os tempos de Francisco Solano López -- morrem de amores pelos Estados Unidos? Quanto às suas elites bisonhas, não há dúvida de que ficam de quatro, igual María Corina Machado, para Donald Trump ou quem estiver na Casa Branca.
Sequer tocamos na trágica experiência da América Central e do Sul entre o final do século XIX e o século XX. Planejamento e execução de atentados como o que matou o presidente Omar Torrijos no Panamá e financiamento de golpes militares sangrentos contra presidentes democraticamente eleitos como Juan Bosch, da República Dominicana, em 1963; João Goulart, do Brasil, em 1964, e Salvador Allende, do Chile, em 1973. Na África, os crimes são ainda mais ousados, como a execução do ex-primeiro-ministro Patrice Lumumba, da República Democrática do Congo, em 1962, e Amílcar Cabral, em Guiné-Bissau, em 1973.
Voltaremos às cínicas intervenções estadunidenses em todo o Mundo, pois, talvez assim, com fatos e imagens, os inocentes úteis que teimam em justificar e defender crimes em série contra a humanidade cometidos pelas elites estadunidenses possam abrir seus horizontes e compreender por que é preciso que a humanidade pare o Nero laranja antes de que seja tarde para todo o Planeta. Sem essa de 'destino manifesto' ou 'povo eleito'...
Este texto é dedicado à memória de Amílcar Cabral, o líder de dois países africanos por ele libertados -- Cabo Verde e Guiné-Bissau --, assassinado em 20 de janeiro de 1973 em uma tocaia sob planejamento de países ocidentais, a pedido do já decadente regime fascista e colonial do Portugal salazarista, de triste memória, que quinze meses depois era deposto pelo Movimento das Forças Armadas Democráticas, sob o comando do General António de Spínola, na célebre Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974.
Ahmad Schabib Hany


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