Quando chamam o petróleo de 'democracia' e a pilhagem de 'civilização'
Jornalista e escritor, autor de "As veias abertas da América Latina", Eduardo Galeano advertira, há mais de 50 anos, que os povos "salvos" pelos Estados Unidos se transformaram em manicômios ou cemitérios. Ex-assistente de Luther King, pré-candidato presidencial em 1984 e 1988, Reverendo Jesse Jackson alertou 10 anos atrás que, em seu país, "os pobres estão ficando cada vez mais pobres, os ricos cada vez mais ricos e a 'classe média' a se afundar".
Não é de hoje que as potências ocidentais, de passado colonialista irrefutável, costumam chamar as riquezas naturais que cobiçam de 'democracia'. Da mesma forma, a sua pilhagem -- isto é, saque, rapinagem, exploração, roubo -- de 'civilização', que também já chamaram de liberdade, progresso e modernidade. Antes dos Estados Unidos -- que já vinham saqueando o México e os países do Caribe --, foram a Inglaterra (depois Grã-Bretanha, hoje Reino Unido), França, Bélgica, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal. Depois do Congo Belga, foram Nigéria, Libéria, Gana, Serra Leoa, Ruanda, Guiné, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola, África do Sul, Chad, Saara, Argélia, Líbia, Sudão, Egito, Palestina, Síria, Líbano e Afeganistão (pós-União Soviética).
Os Estados Unidos e os aliados da OTAN passaram décadas acusando o governo da Venezuela de não ser democrático, financiando uma oposição inconsistente que não representa necessariamente os interesses da população daquele país. Donald Trump, um psicopata temido e pedófico confesso, não hesitou em invadir o território soberano para fazer diatribes e rasgar definitivamente a Carta das Nações Unidas, aprovada quando da criação da ONU no pós-guerra de 1945.
A arrogância e a certeza de impunidade com que as potências ocidentais têm agido -- sobretudo os Estados Unidos -- depois da dissolução da União Soviética, em 1990, é de causar perplexidade e indignação. O acintoso e cínico ataque à Venezuela e o sequestro de sua maior autoridade no primeiro final de semana do ano recém-iniciado não só revelam a verdadeira face do herdeiro do colonialismo europeu (em cuja propaganda, pela indústria cultural, sempre se autoproclamou o porta-voz legítimo da civilização, da democracia e da justiça), como também indisfarçável desespero pelo processo de decadência, de perda da hegemonia econômica e decadência social.
O consumidor do conteúdo midiático ocidental (as mentiras embrulhadas em papel celofane -- para os mais novos, papel de seda --, e, no caso da indústria cinematográfica de Hollywood, efeitos especiais), diferente do leitor crítico -- perspicaz porque procura compreender criticamente tudo o que é divulgado como verdade absoluta --, talvez tenha dificuldade de compreender por que a "operação policial" feita em nome do combate ao narcoterrorismo é pura farsa, pura ilegalidade.
Com a sucessão de operações estapafúrdias e pirotécnicas Trump está violando sistemática e acintosamente cláusulas pétreas do direito internacional -- respeito à soberania nacional, paz e segurança regional, autodeterminação dos povos e à integridade da população e dos dignitários de Estados constituídos --, escritas no pós-guerra de 1945, quando a humanidade despertou perplexa dos crimes causados pela violência nazista, fascista, salazarista e franquista. Por causa da chamada Guerra Fria, António Salazar e Francisco Franco -- dois cúmplices de Hitler e Mussolini -- não foram presos, julgados e condenados em Nuremberg. Tanto que os dois ditadores, de Portugal e da Espanha, morreram impunes, como Alfredo Stroessner e Augusto Pinochet. No caso da Espanha, foi um absurdo que o ditador impôs a volta da monarquia, dando um golpe no rei que deveria ter assumido e determinando que o filho, pedófilo confesso, fosse coroado sem que o pai tivesse abdicado ou falecido, e logo depois protagonizou um escândalo abafado por décadas, com a morte suspeita de uma atriz menor de idade, Sandra Mozarowsky, que estava grávida e ela dizia que era "dele".
EDUARDO GALEANO E JESSE JACKSON
Além do precedente perigoso que abriu com a invasão de um país soberano e o sequestro de sua maior autoridade, Trump violou as normas constitucionais dos Estados Unidos, pois em qualquer circunstância o inquilino da Casa Branca deve comunicar previamente o Capitólio para realizar qualquer ato que caracterize ação militar em território estrangeiro. Nos últimos dias do ano ele já estava às voltas de fortes críticas, inclusive dentro de seu próprio partido, por causa da crise econômica e das repercussões sociais (isso sem entrar na questão do Caso Epstein, em que é acusado de pedofilia por correligionários que representam o chamado núcleo duro do Partido Republicano).
"Cada vez que os Estados Unidos 'salvam' um povo, o deixam convertido em manicômio ou cemitério." Eduardo Galeano, do alto de seus 50 anos de lida, de luta e de Jornalismo crítico, o disse com total autoridade. Não nos esqueçamos de que ele foi o autor de "As veias abertas da América Latina", obra com a qual, pelo menos as gerações das décadas de 1970, 1980 e 1990 acordaram para a realidade atroz e perversa de um império tirano, hipócrita e etnocêntrico como sua funesta metrópole, a Inglaterra dos piratas e genocidas que promoveram o pós-renascimento -- a acumulação capitalista do mercantilismo e da 'revolução industrial' -- a ferro e fogo, sem compaixão ou comedimento.
2026 inicia como terminou 2001. Desesperado ante sua inevitável decadência e a inquestionável ascensão econômica e militar da China, o imperialismo reage furiosa e cegamente, mais uma vez, contra os que ousam afrontá-los soberana e legitimamente. Porque os piratas e corsários do século XXI não são "policiais do mundo" -- como eles cinicamente se proclamaram quando conseguiram a dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, em 1991, e impuseram a "pax americana", mais parecida à paz dos túmulos (Afeganistão, Iraque, Líbia, Egito, Sudão, Congo, Iêmen, Líbia, Síria, Líbano e Palestina que o digam).
Nossa ingenuidade coletiva de habitantes do Hemisfério Sul nos levou a, mais uma vez, sermos tomados de surpresa e perplexidade pela ação predadora e cínica da nefasta potência que só pratica a cobiça e promove infelicidade para o resto da humanidade.
Há alguma dúvida sobre isso? Os EUA alguma vez se engajaram em campanhas de enfrentamento da fome e outras crises humanitárias, em algum continente? Não. O respeitável leitor pode esquecer a "Aliança para o Progresso" (depois USAID), de triste memória, criada por John Kennedy para contrapor à crescente rebeldia dos povos do então chamado "Terceiro Mundo" quando, em plena Guerra Fria, os líderes do Movimento dos Países Não Alinhados -- Jawaharlal Nehru, da Índia; Gamal Abdel Nasser, da República Árabe Unida (Egito); Broz Tito, da Iugoslávia, e Sukarno, da Indonésia -- promoveram as conferências de Bandung e Belgrado e a adesão de dois terços dos Estados-membro da ONU.
Mais uma pergunta: alguma vez os Estados Unidos usaram sua tecnologia e suas riquezas -- resultado de pilhagem ao longo dos últimos três séculos (o México e os países do Caribe que o digam) -- para socorrer a humanidade de flagelos como a pandemia de covid-19? Nem pensar! O governo dos EUA, igualmente que o desmiolado que desgovernou o Brasil na mesma época, não só se negou a promover ações ou implantar políticas públicas de saúde e assistência social, como proibiu instituições de pesquisa públicas a desenvolver estudos para tal objetivo e, pior, retirou o país da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Quanto aos EUA serem uma potência nefasta, não fui eu quem o disse. Há mais de meio século, o Reverendo Jesse Jackson, ex-pré-candidato presidencial de seu país em duas primárias (para 1984 e 1988), acintosamente preterido por "correligionários" do Partido Democrata, em entrevista ao extinto (e original) "New-York Tribune", época em que era assistente do saudoso mártir Martin Luther King (assassinado em 1968), em seu sábio tom ponderado, assim o disse. É dele a frase rebelde: "Erga a cabeça. Jamais se renda."
A propósito, ao não conseguir encontrar nos arquivos da internet a edição do jornal com a emblemática entrevista da década de 1960, compartilho com o/a leitor/a parte de uma entrevista concedida para a Jornalista Joanna Gill, do EuroNews, em 2015, em que, coincidentemente, trata de Cuba, Irã, Venezuela, Julian Assange e Trump, mas o que repercutiu foram as relevantes afirmações de que "é mais barato investir na diplomacia que nas guerras", "na questão dos direitos humanos, não podemos impor a Cuba o que não cumprimos nos Estados Unidos", "é melhor falar sobre as questões dos direitos humanos em vez de isolar os países", "a repressão policial nos EUA é mais uma questão de classe que de uma questão de raça" e "aqui [EUA] os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e a classe média está a se afundar". O Reverendo Jesse Jackson está vivo, mas padece de uma doença degenerativa, por tal razão sua voz sensata não pôde ser ouvida nestes insólitos tempos.
Ahmad Schabib Hany